Terça-feira, Novembro 03, 2009

Spring Garden - Philadelphia - de Miguel Piñero

Tradução Anderson Fonseca e Ricardo Marques




Spring Garden veste uma jaqueta de brechó no verão…
Mentes abertas olhos para cima & para baixo em suas ruas se divertindo com os grafites gravados nas paredes por dedos aborrecidos /
pensamentos aborrecidos / de espíritos com falta de motivação

São 8 da manhã em ponto & corpos latinos estão reunidos para guerrear contra a cidade –
aventura de crianças em suas missões suicidas
ESCOLA / um campo de batalha de uma educação não existente

Bibliotecas estão abertas 22 domingos por ano…

Os pais tem direcionado seus cuidados para brigarem entre si
As fábricas; os chefes; os supervisores antes
homens do campo compais...
Ruas frias cruéis de metal e concreto onde sorrisos vem famintos do eterno
cobrador de impostos


São meio dia & disputas de queda de braços acontecem
nas filas dos abrigos...
garrafas de vinho suave são arremessadas no vazio, mas cheias de arrependimento
na sarjeta
moscas / insetos / vermes/ baratas brigando pelo gosto da esquina
que as línguas humanas não alcançam...

Os traficantes estão acordados do sono de beleza deles
contando a grana da noite passada – descontando o pagamento de hoje ...
michês bêbados & sacolés de heroína...
a farmácia deles a céu aberto na 14 & Green
está sendo dirigida por Don Ernesto el bolitero

O mal brujo contempla Doña Clara la espiritista
& a multidão faminta inicia el señor santo
para concordar com os sonhos de Doña Clara & as interpretações dos presságios
de uma vez... por favor hoje é um bom dia para acertar o número...

Doña Clara reza também...
Tem uma gorjeta de 20 dólares na loja
mira mira me pegué & uma viajem pa’la ilha...

A mucho precisava de férias...

São 6 da tarde & os latinos que vão dançar
estão pegando trouxinhas de boa yerba colombiana
(Eddie Palmieria estará na cidade hoje a noite)

SALSA

quem tem o melhor cigarro na cidade Flaco
Tabaco-Tabaco suelto y en saco

um provérbio americano:
“Se você não anunciar – você não vende” ...

El Bodeguero está amaldiçoando sua mulher / sua amiga /
Ele mesmo pediu leite o suficiente mas não
cerveja o bastante ... porque
o dia se rendeu para a noite &
o gueto está pegando fogo...

La calle está ocupada
sons de anel vá leevio... pique se esconde
pra cima & pra baixo na rua...
jovens garotas em jeans apertados flertando
com jovens cabeludos ... que oferecem
assobios & comentários & promessas

Oye, negra ¿to eso tuyo?
¡Si te cojo, nena!

¡Qué lio te buscará!!!!
¡Pero qué buena está la hija!!!¡Pero qué buena está la mamá!!!!
A grama está cheia de jibaro y salsa música
que viva la música . . .

As soleiras são agora areais para dominó
Amigos de jogo...
Palcos para conga mãos tocando, brincando ou jogando
tu cul pa cul pa ... boom pa ... boom pa...
Tem uma discussão pesada no bar
Uma discussão de família nos degraus

¡Me cago en tu madre hijo de la gran puta!!!!
¡La tuya que me comadre!!!

A policia cercou este bairro 5 vezes
Uma mulher dando a luz foi ouvida no apt. 3
Morte silenciosa visitou a porta ao lado. OVERDOSE

São 11 da noite & 8 rostos velhos cansados e enrugados
sentados & planejando lembranças nos degraus
do departamento da juventude...

e agora enquanto volto no carro de Rosita
para meu hotel solitário ... aquele sentimento morno,
escapa de meu corpo

e eu lembro que estou na Philadelphia
e não em Lower East Side.

O vizinho

Ele está a minha direita, como uma coisa inevitável. Ele está lá, sem me ver, não sabe que existo, não desconfia da minha vida ao seu lado, sim, porque eu estou a sua esquerda; não sabe, portanto, porque evito que ele se veja e que me veja, sim, pois estou sempre a andar no lado esquerdo de tudo, assim, ele que está a direita não me nota e nem se vê. Claro, que faço isto por uma razão, como ambos estamos juntos desde o nascimento somente dividindo um rosto, sabemos que caso um ou outro apareça, isto é, que o lado se inverta e seja notado, óbvio que se declara o fim de um de nós dois, logo, se eu for percebido por ele, meu corpo passará a andar pelo lado direito das coisas. Por esta razão, que mantenho-me atento e cauteloso quanto ao meu movimento na cidade, pois considero necessário evitar que ele se perceba. Para tanto, inventei maneiras ardilosas de impedir isto, por exemplo, caminho pelas ruas diligentemente observando meus passos e lugares, esquinas, avenidas, carros, pessoas, etc., buscando estrategicamente os espaços que não permitem sua manifestação, mas antes colaborem para minha permanência na direção que escolhi. O que me motiva é o medo de que ante a sua manifestação eu desapareça e passe a acompanha-lo cegamente. Mas, se acontecer, deixarei de aviso a ele que sempre estarei a estreita de seu sorriso aguardando um ato falho para que eu retorne.

Domingo, Outubro 18, 2009

Apple

Todos sabem, amigos e parentes, e o afirmam tantas e tantas vezes a fatigar-me os ombros, que sou imaturo, não faço objeção. Por isto, escapou da minha cabeça um bichano muito interessante, redondo, peludo, amarelo e saboroso, chamei-o de Apple por que sua fascinante existência está para indicar-me o quanto estou a crescer espiritualmente. E para que eu não me esqueça do propósito inevitável da vida, evoluir, Apple agarra-se a certas partes do meu corpo iconoclastas da evolução humana: uma hora está numa das pernas, outra na nuca para que eu lembre da coluna vertebral, e noutra sobre a cabeça.
É chato ficar preso a esta criatura que vive em mim como uma célula cancerígena. Observá-lo dia e noite custa-me o fôlego, e eu que não sou afeito a companhias duradouras, mas apraz-me a variabilidade das relações, sou forçado pelas circunstâncias a conviver com este bicho sem ter o direito, sequer a vontade, de expulsá-lo da minha vida.
Houve momentos em que estando triste, ele surgia diante de mim para distrair-me dos meus augúrios, senti piedade do bichano e recolhi no escuro meus intentos contra ele. Apple não pode sorrir, falta-lhe lábios, entretanto, sei quando está feliz, o amarelo de sua pele fica mais púrpuro e chega a me encantar; na melancolia a cor empalidece se aproximando do cinza. Não sei se a mudança do brilho de sua cor é o reflexo do meu estado de espírito, talvez seja, mas quanto a isto tenho dúvidas.
Apesar que, lembrando a razão de sua vida, é provável que as mudanças que sofro no meu íntimo revelem-se na alteração de sua cor, - isto pesa sobre mim mais do que nele, por que sei que a qualquer mudança brusca e intensa que eu sofra posso levá-lo à morte ou a uma felicidade sem medida. Sou inclinado a equilibrar minhas emoções para que não o afetem profundamente. Tenho, portanto, com ele, enorme cuidado.
Quando completei vinte anos, ele surgiu. Aos vinte e oito, percebi uma mudança na sua cor e forma, ele está verde e com pézinhos. Estou bastante feliz, significa que algo dentro de mim mudou. Apple, agora, cheira a maçã verde e uva italiana. Contudo, não posso ignorar uma verdade, aos trinta anos estarei crescido e não irei recuar no tempo, e isto me preocupa, pois nesse dia, Apple ficará vermelho, e eu sei, como todos sabem, que o que fica maduro se come.